A Itaipu Binacional, em parceria com a Embrapa, deu início a um amplo levantamento de fauna ao longo da faixa de proteção do seu reservatório. A campanha científica, que ocorre até sexta-feira (3), contempla 15 pontos amostrais estratégicos ao longo da margem brasileira do reservatório. O trecho que a equipe avalia vai de Guaíra a São Miguel do Iguaçu.
A proposta é mapear quais animais vivem na região e estudar seus traços funcionais, ou seja, o papel de cada espécie no ambiente, como o que ela come e onde se abriga. Mais do que uma lista de bichos, o inventário é um diagnóstico da saúde do ecossistema.
A lógica é simples: os animais polinizam plantas e espalham sementes. Com isso, a floresta se renova sozinha. E é a mata em pé que segura o solo e evita o assoreamento do reservatório, o acúmulo de terra e sedimentos no fundo dele. O resultado chega às turbinas: água mais limpa. Onde a fauna está bem, a floresta costuma estar também. Por isso, contar os animais ajuda a medir a qualidade do ambiente.
Como a pesquisa é feita
O inventário se divide em quatro campanhas de campo ao longo de dois anos. Além dos pequenos mamíferos, a equipe registra morcegos e aves, que carregam sementes por longas distâncias durante o voo, e mamíferos de médio e grande porte, que mantêm o equilíbrio da cadeia alimentar.
No início desta semana, durante o trabalho de campo no ponto amostral de Itaipulândia, o biólogo Gabriel Lobregat de Oliveira, da Divisão de Áreas Protegidas da Itaipu, destacou a importância estratégica do projeto. Segundo ele, os dados ecológicos que a equipe coletou vão subsidiar futuras ações de manejo ambiental. A medida ajuda a enriquecer os habitats e preservar diretamente os recursos hídricos.
“Com esse levantamento dos animais que residem ali, ou que deveriam residir ali, conseguimos medir a qualidade do ambiente. A partir dos resultados, estruturamos possíveis estratégias de manejo do ambiente para que a mata se mantenha mais tempo em pé, garantindo a qualidade da água do reservatório e de uma série de serviços ecossistêmicos”, afirmou Oliveira.
Para a captura e análise de pequenos mamíferos (animais com peso inferior a um quilo), a equipe de pesquisadores utiliza metodologias específicas de amostragem. O biólogo Lucas Felizardo, da Tapir Ambiental, que atua na pesquisa de campo, explica que a equipe usa armadilhas dos modelos Tomahawk e Sherman, com iscas artesanais à base de banana e pasta de amendoim. De acordo com o especialista, o protocolo exige de quatro a cinco noites de monitoramento contínuo em cada ponto para garantir a eficiência da amostragem.
“É muito comum que, nos primeiros dias, os animais não interajam com as armadilhas, porque sabem que é uma estrutura diferente do ambiente. Por isso, o processo é feito por um tempo maior, para que os animais se familiarizem com elas”, disse Felizardo.
Indicadores de sustentabilidade
Essas espécies sinalizam a saúde da faixa de proteção: sua presença e seu comportamento funcionam como indicadores biológicos. Ao acompanhar esses números ao longo do tempo, a Itaipu avalia se as áreas protegidas cumprem seu papel: regular o ciclo da água e proteger o solo da erosão. No fim, conservar a biodiversidade e gerar energia limpa é o mesmo trabalho.